Memória escassa, preço subindo e renovação de parque em curso: um guia de leitura de mercado para revendas de TI e impressão.
Se você compra tecnologia para revender, já percebeu: a cotação de notebook que valia por duas semanas agora vale por três dias. Configurações somem do catálogo. O mesmo modelo volta com menos memória pelo mesmo preço. E o cliente, que viu o preço antigo na internet, acha que a revenda está aproveitando a situação. Não está. O que está acontecendo tem causa conhecida, tem prazo estimado e, para quem se organiza, tem oportunidade. Este artigo explica o movimento e propõe cinco decisões para o 4º trimestre.Por que o notebook ficou mais caro
A resposta curta é: inteligência artificial — não a que roda no notebook, mas a que roda nos data centers. Treinar e operar modelos de IA exige muita memória de alto desempenho. Os poucos fabricantes que produzem memória no mundo passaram a direcionar capacidade para esses chips, que dão mais margem e são vendidos em contratos longos com grandes provedores de nuvem. Sobra menos memória comum para notebooks, desktops e celulares, e o preço sobe. O IDC descreve esse movimento como uma realocação de capacidade, não como um pico passageiro. Em junho, a consultoria afirmou que a escassez de memória não deve ter alívio relevante antes do fim de 2027 e que os preços não devem voltar ao nível de 2025, mesmo quando a oferta crescer.O que dizem os números
Três números ajudam a dimensionar o cenário:- +18,3% no preço médio de PC em 2026, segundo a projeção do IDC publicada em junho.
- −11,3% nos embarques globais de PCs no ano, pela mesma projeção.
- −20,1% nos embarques globais de PCs no 3º trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados preliminares do IDC divulgados em outubro (62,7 milhões de unidades).
O efeito Brasil
No Brasil, há um fator a mais. A Resolução GECEX nº 852/2026, publicada no Diário Oficial em 5 de fevereiro, elevou o Imposto de Importação de componentes de informática. A memória RAM passou a ter alíquota de 12,6%, contra 0% a 6,5% antes; processadores passaram a 7,2%, contra 0% a 2%. Segundo o Ministério da Fazenda, o objetivo é proteger a produção local. A medida atinge componentes, não notebooks prontos. Mas quem fabrica ou monta no país sente o custo, e ele chega à tabela de preços em algum momento da cadeia.Impressão tem outro movimento
Nem todo o portfólio da revenda está sob a mesma pressão. O mercado de impressoras e multifuncionais segue em queda no mundo — os embarques caíram 7,0% no 2º trimestre de 2026, para 17,2 milhões de unidades, segundo o IDC —, mas por razões diferentes: menos páginas impressas e troca de tecnologia, não falta de componente. Dois detalhes interessam à revenda brasileira. Primeiro, a América Latina voltou a crescer no 2º trimestre, puxada pela recuperação do laser e pela força do jato de tinta. Segundo, as impressoras com tanque de tinta continuam ganhando espaço sobre as de cartucho, em todos os mercados. Ou seja: enquanto o lado de PCs pede cautela com estoque e preço, o lado de impressão pede atenção ao mix certo dentro de uma categoria que se move.A IA também pode trabalhar para a revenda
Até aqui, a IA apareceu como causa do problema. Ela também pode ser parte da solução dentro da própria revenda, com usos que já estão ao alcance de empresas de qualquer porte:- Previsão de demanda: cruzar histórico de vendas, sazonalidade e base instalada dos clientes para antecipar o que vai ser pedido nos próximos 60 dias.
- Cotação mais rápida: montar propostas e comparar configurações em minutos, o que conta muito quando o cliente já chega com preço pesquisado.
- Leitura de giro: identificar o que está parado no estoque antes que vire problema de caixa.
Cinco decisões para o 4º trimestre
- Antecipar as compras recorrentes
- Revisar o mix por configuração
- Proteger os clientes que ainda usam Windows 10
- Oferecer alternativas ao equipamento novo
- Combinar prazo e disponibilidade com o distribuidor